Colheita - Ceifeiras, António Carvalho da Silva Porto
Quando, ainda garoto, deixei estas terras áridas e quentes, jurei nunca mais voltar. Jurei-o, não por não gostar desta extensa planície a perder de vista ou por me cansarem os sobreiros como única vegetação ao longo de quilómetros e quilómetros, até onde a vista alcança. Jurei-o, sim, por não querer mais ver esta terra de casas térreas e alvas, sem poder adivinhar em nenhuma delas a figura enorme e reconfortante do meu Avô. Mas por estes dias, já tanto tempo passado, voltei a sentir o apelo do bafo quente que por aqui reina e, depois de muito pensar, voltei. E voltei para, como num sonho, encontrar tudo tal e qual ficou quando parti, há tantos, tantos anos atrás. Até a casa da minha meninice.
Aproximei-me de mansinho e quase podia vê-lo, à soleira da casinha baixa e caiada, curvado e velho, sentado num mocho de equilíbrio duvidoso enquanto as suas mãos, misteriosamente hábeis e rápidas para a idade, faziam nascer a minha melhor fisga de um galhito miserável, à medida que manejavam, com uma destreza invejável, a mesma faca com que, noutros dias, me cortava grossas fatias de queijo para a merenda.
Nessa tarde, eu chegara da escola com a cabeça cheia de perguntas e não hesitei em bombardeá-lo com uma série delas assim que me sentei no terreiro em frente a ele.
Olhando para trás, não posso deixar de sorrir quando me assolam estas lembranças da minha inquestionável certeza sobre a sabedoria d’O Avô. Hoje penso como lhe terá sido difícil responder a todas as minhas questões, ele que nem o próprio nome sabia assinar. E, no entanto, passadas todas estas décadas, não hesitaria um segundo em colocar-lhe uma série ainda maior delas, pudesse eu tê-lo, ainda a meu lado para mas responder.
Nesse dia, porém, as perguntas que me atormentavam giravam todas em torno da mesma ideia; ideia sobre a qual a professora tinha falado horas a fio, sem que nenhum de nós saísse da aula minimamente esclarecido – a ideia de Pátria -. Dissera-nos ela que a Pátria era como que a alma do país. Ora isto, para mim e para os outros garotos da minha idade que, do país, conhecíamos apenas o mapa desbotado que enchia um placard na parede e onde íamos – a tremer, confesso - apontar os nomes dos rios e das cordilheiras e indicar os percursos dos caminhos de ferro ou a sucessão dos portos de mar, a ideia desse mapa ter alma não era coisa que nos entrasse na cabeça. E, bem vistas as coisas, se alma houvesse, devia ser bem maldosa, a avaliar pelos castigos que nos aguardavam de cada vez que colocávamos, por engano, o Lima em terras algarvias. Era, de certeza, uma daquelas almas que, quando morrem, vão direitinhas para o inferno, onde ficam a arder pela eternidade. Esta ideia acabou, alias, por me ser confirmada pela própria professora que, logo depois, nos disse que “as gentes” eram a alma do país. E, como ela passava a vida a dizer que a gente era um bando de mafarricos, parecia-me que tudo batia certo: fosse o que fosse a Pátria, de certeza que era uma daquelas almas danadas que vão arder no inferno.
E foi mais ou menos assim que, confuso mas um tanto ou quanto orgulhoso do meu raciocínio, explanei a minha “teoria” sobre a alma do país ao meu avô.
Quando acabei, quase sem fôlego de tanto entusiasmo que dera à narrativa e ao afã com que reproduzira as palavras da professora e as minhas próprias conclusões, vi o sorriso complacente d’O Avô a iluminar-lhe o rosto sempre sereno. Devo ter arqueado ligeiramente a sobrancelha e fechado os lábios num beicinho ameaçador porque, ao ver aquele sorriso, desconfiei que, afinal, talvez o meu raciocínio não fosse assim tão brilhante. Mesmo assim, continuei a mirá-lo à espera de uma explicação mais convincente. Coisa que, no fundo no fundo, sempre pensei que houvesse porque me parecia não fazer sentido prestar tanta homenagem ou dar tanta importância à Pátria, se ela fosse uma alma tão mazinha e deturpada.
O Avô respondeu ao meu olhar com a costumada serenidade, aquela calma com que sempre dizia tudo, como se todas as coisas fossem simples e óbvias: “E se em vez de tentares ver a alma, experimentares olhar as mãos?!”.
Claro que, se até então estava confuso, depois de ouvir aquilo fiquei definitivamente sem saber o que pensar: “As mãos?! Olha agora queres ver que as mãos é que são a Pátria?! Ou que a Pátria tem mãos?!”. Mesmo assim, não o interrompi e esperei que, as próximas palavras, lançassem um pouco de luz sobre esta estranhíssima introdução.
“Quando olhares para qualquer pessoa, tenta ver primeiro as mãos e, sempre que o fizeres, procura entender o que fazem de válido com elas. As mãos de uma pessoa podem dizer-te tudo o que precisas de saber sobre ela: podes saber qual é o seu modo de sustento, se é rica ou pobre, se é nova ou velha. Nelas estão escritas todas as coisas: nas mãos calejadas das ceifeiras está o suor e o esforço dos dias, está o sustento de muitas famílias, está o pão que nos alimenta; mas, se olhares as mãos de um juiz, por exemplo, encontrarás nelas o símbolo da justiça, o garante de que a sociedade se preocupa com cada um de nós e que é uma estrutura moral, com leis e regras que devemos cumprir; e se olhares as mãos de um mineiro vês o negrume do carvão que nos aquece as casas no frio do Inverno; é assim com as mãos de todas as pessoas. Olha, e as mãos da tua avó?! Vê-las todos os dias lembras-te?! Estão gastas do tempo, tal como as minhas, mas ainda trabalham, ainda fiam… E já criaram o teu pai, os teus tios; era nelas que eles procuravam conforto, como tu ainda hoje procuras nas minhas… A Pátria também é assim: a Pátria são as nossas mãos todas juntas, como uma cadeia que nem o tempo nem o espaço podem quebrar porque as nossas mãos estão presas ao resto do nosso corpo e o nosso corpo é sustentado pelos nossos pés estão agarrados ao mesmo chão, de onde nascemos todos.
A Pátria nasceu e manteve-se graças ao esforço e ao suor das mãos de muitos, que por Ela empunharam espadas e ultrapassaram barreiras que se julgavam intransponíveis. Agora, ainda não sabes mas, um dia, falar-te-ão desses Homens cujas mãos criaram e cuidaram do nosso país… E, nessa altura, falar-te-ão de outros: outros que, com as suas mãos, levaram o nosso nome bem longe e o elevaram bem alto, com as suas obras; de outros cujos cantos se mantêm vivos até hoje, como testemunho da valentia e da audácia de um povo que é o nosso; de outros ainda cujas palavras trouxeram mudança, cuja visão nos deu um novo alento… Um dia falar-te-ão de tudo isto e, quando o fizerem, lembra-te de admirar esses Homens e as obras que das mãos deles surgiram. Mas nunca te esqueças, também, de todos os homens que ninguém conhece e dos quais os livros não falam, porque é graças ao esforço das suas mãos que o país existe.”
Durante todo o tempo que durou a sua explicação, ouvi-o atentamente e tudo quanto disse pareceu-me muito mais importante do que as “almas” de que falara a minha professora. Só que, mal me apercebi disso, encheu-me uma angústia tremenda à vista das minhas mãos pequenas e vazias.
Então perguntei, um pouco a medo:
“E as minhas mãos, Avô?! Nas minhas mãos não se vê nada; não está cá nada…”
A resposta veio, lentamente, com a mesma candura e a mesma inelutável certeza de sempre:
”Está sim, meu filho, claro que está: nas tuas mãos… está o futuro.”
A ouvir: Vitorino - A queda do Império